Por que sempre escolho a pessoa errada?
Quando a pessoa errada aparece uma vez, é azar. Quando aparece sempre, com rostos diferentes e a mesma história, o padrão não está no outro. Está no que, em você, reconhece aquele jeito de ser tratado como familiar. A gente não escolhe a pessoa errada. A gente escolhe a pessoa conhecida.
E conhecido, para o nosso arquivo interno, parece com seguro. Mesmo quando dói.
O roteiro que se repete
Você conhece o começo: a química é forte, rápida, parece destino. Você sente que conhece aquela pessoa há anos.
Depois, aos poucos, o roteiro aparece. A pessoa some, ou controla, ou não se compromete, ou precisa ser salva. E você, de novo, no mesmo papel: esperando, cuidando, se esforçando para merecer.
Quando acaba, a frase é a mesma: "por que eu sempre escolho o homem errado?", "por que eu atraio esse tipo de mulher?". E logo vem outra pessoa, que no começo parecia completamente diferente.
Por que o familiar atrai
A primeira forma de amor que você conheceu ensinou a você como o amor é. Não com palavras, com experiência. Como era receber atenção, quanto ela custava, se ela vinha ou se precisava ser conquistada.
Esse aprendizado vira arquivo. E o arquivo funciona como um radar: ele sente atração pelo que reconhece. Uma pessoa disponível e tranquila pode parecer sem graça para quem aprendeu que amor é ansiedade. A química forte, às vezes, é só reconhecimento.
Eu costumo dizer que você não está reagindo à pessoa. Está reagindo ao arquivo.
A tentativa de reescrever o final
Freud percebeu que repetimos aquilo que não conseguimos lembrar. Na vida amorosa, isso aparece de um jeito muito claro: a gente volta à mesma cena tentando, desta vez, um final diferente.
Se o pai não estava disponível, escolher alguém indisponível e finalmente conquistá-lo seria, de algum modo, consertar o passado. Só que o final quase nunca muda, porque a pessoa escolhida justamente por ser indisponível continua indisponível.
O que é seu nessa história
Isso não significa que a culpa é sua quando alguém trata você mal. Quem maltrata é responsável pelo que faz. E se você está numa relação com violência, de qualquer tipo, procure ajuda: o Ligue 180 atende mulheres em situação de violência, de graça, 24 horas.
Mas existe uma parte que é sua, e é a parte que você pode mexer: o que você ignora no começo, o que você aceita como normal, o que você confunde com amor.
Como começar a romper o padrão
Faça uma lista das pessoas importantes da sua vida amorosa e, ao lado de cada uma, escreva como você se sentia na relação. Não como a pessoa era. Como você se sentia. Muitas vezes os nomes mudam, e o sentimento se repete inteiro.
Repare também nos sinais que você viu no começo e decidiu não ver. Eles quase sempre estavam lá.
E desconfie, com carinho, da química imediata. Não para fugir dela, mas para perguntar: o que exatamente eu estou reconhecendo nessa pessoa?
Escolher diferente começa antes da escolha
Escolher diferente não começa no aplicativo de namoro. Começa em entender o que o seu arquivo chama de amor. Enquanto ele não é olhado, ele escolhe por você, e escolhe bem: escolhe exatamente o que conhece.
Que tipo de amor você aprendeu que merecia?


