Por que repetimos os mesmos erros?
Você repete o erro porque não está reagindo à situação que tem na frente. Está reagindo a um arquivo antigo, escrito muito antes de você ter palavras para concordar com ele. E arquivo que não é olhado continua decidindo por você.
Parece duro, mas é o contrário. Se o erro fosse falta de força de vontade, bastaria prometer mais forte. E você já prometeu. Mais de uma vez.
A promessa que não segura
Você conhece a cena. Acontece de novo, você se irrita consigo mesmo e jura: "desta vez eu aprendi". Passa um tempo, aparece outra pessoa, outro emprego, outra conversa, e lá está você fazendo exatamente a mesma coisa. Com outro cenário, mas com o mesmo roteiro.
A promessa não segura porque ela é feita pela parte de você que pensa. E o erro não é cometido por essa parte. Ele acontece antes, rápido, num lugar onde a sua decisão ainda nem chegou.
O que a psicanálise chama de repetição
Freud percebeu isso há mais de cem anos e deu um nome: compulsão à repetição. Ele escreveu sobre ela em Recordar, repetir e elaborar, de 1914, e voltou ao tema em Além do princípio do prazer, de 1920. A ideia, simplificando muito, é esta: aquilo que a gente não consegue lembrar, a gente repete.
Não repete por gosto. Repete porque é a única forma que aquilo encontrou de aparecer.
Freud também escreveu uma frase que eu gosto muito: "O eu não é senhor em sua própria casa." Não é para tirar a sua responsabilidade. É para mostrar onde ela começa: em olhar para dentro da casa.
Você não está reagindo à pessoa
Eu costumo dizer assim: você não está reagindo à pessoa, você está reagindo ao arquivo.
O chefe levanta a voz, e você responde a alguém que levantou a voz com você quando você tinha oito anos. O parceiro demora a responder a mensagem, e a angústia que aparece é muito maior do que uma mensagem atrasada merece. A proporção denuncia o arquivo: quando a reação é grande demais para o fato, ela não é sobre o fato.
E isso não é defeito seu. O arquivo foi escrito quando você não tinha como escolher. Mas ele é seu para olhar.
Por que saber não basta
Muita gente já entendeu o próprio padrão. Sabe explicar, sabe até de onde vem. E continua repetindo.
Entender com a cabeça é um começo, mas o arquivo não fica na cabeça. Ele mora no corpo que acelera, na frase que sai antes de você pensar, na decisão que você jura que foi sua. Por isso o trabalho não é só saber. É perceber na hora em que acontece. Primeiro depois, depois durante, um dia antes.
Por onde começar
Não comece tentando parar de errar. Comece reparando.
Da próxima vez que você se pegar no erro de sempre, não se xingue. Pergunte: "quantos anos eu tenho agora, nesta reação?" A resposta costuma ser bem menor do que a sua idade.
Repare também no que se repete entre as situações, e não no que muda. As pessoas mudam, os lugares mudam. O que fica igual é você. Essa é a pista.
E repare na proporção. Toda vez que a reação for maior do que o fato, anote. Sem julgamento, só anote. Em pouco tempo você vai ter um mapa do seu arquivo mais preciso do que qualquer teste.
O erro como recado
Talvez o erro que você mais repete seja a coisa mais honesta que existe em você. Ele insiste porque tem algo para mostrar. Enquanto você só tenta calar o erro, ele volta. Quando você começa a escutar, ele muda de lugar.
Quanto do que você chama de "sua vida" foi de fato escolhido por você?
Não é uma pergunta para deprimir. É uma pergunta para libertar.


