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Blog · 31 de outubro de 2026

Por que eu me saboto?

Ninguém se sabota por gosto. Quando você estraga justamente aquilo que mais queria, alguma parte sua está tentando proteger você de algo que ela acha mais perigoso do que fracassar. A autossabotagem não é falta de vontade. É vontade demais, só que de outra coisa.

Parece contraditório, e é. Por isso é tão difícil de ver.

Como a autossabotagem aparece

Às vezes é explícita: você some na semana da entrevista, briga com a pessoa justo quando a relação fica séria, gasta o dinheiro que estava guardando.

Mas quase sempre ela é discreta. É adiar o projeto até não dar mais tempo. É fazer de qualquer jeito para ter uma desculpa pronta. É escolher o caminho que você já sabe que não vai dar certo, porque pelo menos o fracasso é conhecido.

E depois vem a frase de sempre: "por que eu sempre estrago tudo?"

O que você ganha perdendo

A pergunta que muda a conversa é estranha, mas vale fazer com calma: o que eu ganho quando isso dá errado?

Talvez você ganhe a confirmação de algo que acredita sobre si. "Eu sabia que não era para mim." Por mais dolorosa que seja, uma crença confirmada dá uma sensação de chão.

Talvez você ganhe distância de algo que assusta: ser visto, ser cobrado, ter mais a perder, ser maior do que as pessoas da sua família foram.

Talvez você ganhe controle. Se você mesmo derruba, pelo menos não foi derrubado.

O medo de dar certo

Fala-se muito em medo de fracassar. Pouca gente fala do medo de dar certo.

Dar certo muda o lugar que você ocupa. Muda o que esperam de você. Às vezes afasta você de pessoas que ficaram para trás. E existe um arquivo antigo, em muita gente, que diz em voz baixa: "quem é você para ter isso?"

Esse arquivo foi escrito antes de você ter palavras para concordar com ele. Mas ele continua assinando por você, toda vez que a coisa começa a dar certo demais.

Sabotagem nos relacionamentos

Nos relacionamentos, a autossabotagem costuma vestir a roupa do ciúme, da cobrança, do afastamento repentino, da briga que aparece exatamente quando tudo está bem.

Quando a pessoa chega perto, chega também a possibilidade de ser abandonado. E para quem aprendeu cedo que perder dói demais, às vezes parece mais seguro ir embora primeiro. Ou provocar até o outro ir.

Não é maldade. É um jeito antigo de não sofrer, que hoje faz você sofrer de outro jeito.

Por onde começar

Não comece se cobrando mais. A cobrança é, muitas vezes, mais uma forma de sabotagem: você se exige tanto que desistir vira alívio.

Comece reparando no momento exato em que você vira a chave. O que estava acontecendo um pouco antes? O que tinha acabado de dar certo? O que estava prestes a ficar sério?

Depois, pergunte com honestidade: do que essa sabotagem está me protegendo? A resposta raramente é a primeira que aparece. Fique com a pergunta alguns dias.

E desconfie da frase "eu sempre estrago tudo". Ela é parte do arquivo. Quem estraga não é você inteiro. É uma parte sua, com medo, fazendo o melhor que aprendeu a fazer.

A parte que sabota também é você

A parte que sabota não é sua inimiga. Ela é a parte que mais precisa ser escutada. Enquanto você briga com ela, ela vence. Quando você começa a entender o que ela teme, ela perde a pressa.

O que você estragaria se tivesse certeza de que pode dar certo?

“Porque você quer saber mais sobre você.”

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