Como começar a ter autoconhecimento
Autoconhecimento começa quando você para de olhar só para o que acontece com você e passa a olhar para como você reage ao que acontece. Não começa num teste, num livro ou numa viagem. Começa na próxima vez que você se irritar, se calar ou disser "sim" querendo dizer "não".
É simples de dizer e trabalhoso de fazer. Mas é por aí.
O que é autoconhecimento, de verdade
A palavra virou moda, e moda gasta as palavras. Então vale definir.
Autoconhecimento é entender as suas emoções, as suas ações e as suas reações. Saber o que você sente, por que sente, e o que faz com isso. Não é saber a sua cor favorita nem o seu tipo de personalidade. Isso é descrição. Autoconhecimento é explicação.
E uma curiosidade de quem pesquisa a palavra: escreve-se junto, "autoconhecimento", sem hífen.
Por que é tão difícil
Porque o instrumento que você usa para se conhecer é você mesmo. É como tentar ver o próprio olho sem espelho.
E porque boa parte do que move você não está à vista. Freud escreveu que "o eu não é senhor em sua própria casa". Muito do que você chama de escolha foi decidido antes, por registros antigos, que eu costumo chamar de arquivo. Você não está reagindo à pessoa. Está reagindo ao arquivo.
Se fosse só pensar, todo mundo já se conheceria.
O primeiro passo: reparar nas reações
As reações são a porta de entrada mais honesta que existe, porque elas acontecem antes de você ter tempo de se arrumar.
Durante uma semana, repare em três tipos de momento:
- Quando a sua reação foi maior do que o fato.
- Quando você fez o contrário do que tinha decidido fazer.
- Quando você sentiu algo e não soube dizer o quê.
Não tente corrigir nada ainda. Só repare. Corrigir antes de entender é trocar um padrão por outro.
Escreva
Escrever obriga a dar nome. E o que tem nome dá para olhar.
No fim do dia, anote um desses momentos. O que aconteceu, o que você sentiu, o que você fez, e uma pergunta: com quem mais eu já me senti assim? Não precisa ser bonito nem longo. Precisa ser verdadeiro.
Depois de algumas semanas, leia tudo de uma vez. Você vai ver o que nenhum dia isolado mostra: o que se repete.
Perguntas melhores que respostas
Quem começa a se conhecer quer logo uma resposta. "Eu sou assim por causa disso." Desconfie das respostas rápidas. Elas fecham a porta cedo demais.
Prefira ficar com boas perguntas. Quanto do que eu quero foi de fato escolhido por mim? De quem é essa voz que me cobra? O que eu estaria sentindo se não estivesse com raiva agora?
Uma boa pergunta trabalha por você durante dias.
O que esperar
Não espere virar outra pessoa. Autoconhecimento não é reforma, é visão. Você continua sendo você, só que vendo mais.
E prepare-se para uma surpresa: quanto mais você se conhece, mais percebe o quanto não sabe. Eu digo que a pessoa sai de cada conversa sobre isso com a certeza de que cada vez sabe menos. Menos do que achava que sabia sobre si. Isso não é retrocesso. É o caminho funcionando.
Sozinho ou acompanhado
Dá para começar sozinho, e este texto é um convite para isso. Mas é mais fácil enxergar com alguém mostrando onde olhar. Pode ser um livro, uma conversa, um grupo, um profissional.
Se o que você encontra ao olhar para dentro dói muito, ou se você está em sofrimento, procure um psicólogo. Autoconhecimento não substitui terapia.
O resto começa na próxima reação. Repare nela.


